agosto 09, 2009

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
Clarice Lispector

minha holambra virou cimento.

Então eu cheguei pra mais uma visita dominical, e por um momento senti como se a alma saísse do corpo pra procurar o que a vida inteira esteve ali. Um gelo paralisante me invadiu. O jardim sumiu. O jardim que por longos anos passei as tardes de domingo com ela. Ele dividia-se em dois grandes canteiros. No direito havia uma árvore Jasmin imensa, que sombreava a varanda, algumas mudas de Sorriso, Violetas (suas prediletas), Ficus, o pé de coentro que plantei e outras que não lembro o nome mesmo. No esquerdo haviam as rosas, que eram o dengo da minha véa, e outras que também não lembro o nome.

Hoje o cimento ocupa o lugar do verde, as lembranças, a saudade, doeu tanto. Foi naquele jardim que dei os primeiros passos, que brinquei. Foi nele que a foto do primeiro dia de aula foi tirada. Foi lá que nós nos divertiamos brincando com a mangueira na hora de regar as plantas no final da tarde. Ainda consigo sentir o cheiro do jasmin que começava no meio da rua e percorria a casa inteira, um verdadeiro tapete branco pelo quintal. E foi lá que ela, serenamente partiu, sentada, adormecida. A flor mais preciosa do meu jardim.