julho 20, 2008

'O meu amor é seu amor, também é o meu amor, é seu, é nosso'

Martha Medeiros

Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona para festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra?
Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos. Verdade verdadeira.
Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contraído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas para festa. Te leva para o mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillón.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura um confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém!
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Que eu possa sempre dispor de momentos como ontem...
Vinho. Amigos. Violões. E um coro bem desafinado a acordar a vizinhança madrugada a dentro.
Apesar de achar essas datas comemorativas meras estratégias do comércio...
Feliz dia do Amigo!

julho 12, 2008

Meu nando...

Um Simples Abraço
Composição: Nando Reis


Sou uma colhere o seu prato está virado, você não vai comer ?Sou lá fora o frioseu casacoestá guardadovocê não vai passar em casa ?Sou uma avenidae o seu carroestá paradovocê não vai sair ?Sou um temporale os seus lábiosestão fechadosmas se você sorrir eles se abrem.O que você precisa ?se você precisar.Uma margarida comumum beijo ou um simples abraçoque é pra você lembrar de mim.

junho 30, 2008

Toda rotina tem sua beleza..

Texto: Propaganda da Natura
=D

A idéia é a rotina do papel.





O céu é a rotina do edifício.





O inicio é a rotina do final.


A escolha é a rotina do gosto.



A rotina do espelho é o oposto.

A rotina do perfume é a lembrança.


O pé é a rotina da dança.

A rotina da garganta é o rock.

A rotina da mão é o toque.



Julieta é a rotina do queijo.




A rotina da boca é o desejo.

















.O vento é a rotina do assobio.


A rotina da pele é o arrepio.



A rotina do caminho é a direção.





A rotina do destino é a certeza.
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Toda rotina tem sua beleza.

Vai saber...

Tati Bernardi (adaptado)

É estranho como sinto saudades quando você vai buscar água. Aqueles segundos que separam o resto das suas canelas se perdendo no corredor com o pulo que você dá na cama.Aí você volta cheio de pressa em se livrar de mim e eu penso que tudo bem. Você tem pressa até de se livrar de você mesmo. O problema não deve ser eu. E eu nem te amo mesmo. Só fui te visitar porque tenho preguiça de transar com qualquer um e se fico mais de 3 semanas sem sexo começo a arrumar confusão no trânsito.

Respiro aliviada e sugo o máximo de você, pra ter a certeza absoluta de que não é você. Não sonhei com você. Não quero passar minha vida ao lado da pessoa mais estranha do mundo. Imagina só ficar grávida de um homem que tem pavor de mulher com enjôo? Imagina só ficar velha ao lado de um homem que tem pavor davida óbvia, cotidiana e imperfeita? Eu viveria infeliz.

Não é você. E lá vem você me perguntar porque é que estão todos casando, e falar pela trigésima vez que você vai acabar sozinho e não deve nada a ninguém. E lá vem você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio. E me falar para eu não sofrer e para eu ir embora e para eu não esperar nada e para eu não desistir de você. E eu me digo que não é você. Porque, se fosse, meu sono seria paz e não vontade de morrer.

Me despeço, já sem aquela dor aterrorizante, das partes de você que mais amo. Ainda que eu nem te ame mesmo. E me despeço das partes da sua casa que eu mais amo. Ainda que nada disso seja amor.

Preciso me aliviar. Mas dou até risada porque acabaram os caminhos. O mundo não suporta mais esse meu não amor por você. E escrever, que sempre foi a única coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo. Escrever sobre você de novo? De novo? Tenho até vergonha. Nem eu suporto mais gostar de você. E olha que nem gosto.

É como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia, os carros correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta todo dia de manhã na minha janela, a torta de palmito na geladeira, a minha vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido, um cara qualquer que eu dormi (e todos eles parecem qualquer quando não são você). É como se o mundo inteiro me dissesse: “hei Tati, ninguém agüenta mais esse assunto! Chega!”

E no meio da noite, quando eu decido que estou ótima afinal de contas tenho uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes a acabar.

Lembro de você me dando mostarda de café da manhã na primeira vez que dormi na sua casa, de você com os olhos disfarçando uma lágrima porque a minha cachorra buscou a bolinha e era só uma desculpa para eu fechar a porta antes dela voltar. Lembro de você querendo fugir de um museu na Itália porque tantos dias longe de casa te deram uma espécie de bobeira e você achava que estava sufocando. Lembro da sua jaqueta com um sol nas costas e do seu cabelo , do cheiro que você tem bem no centro da nuca, do gosto amargo de menino que tem pressa de tomar banho que você tem bem no fundo da orelha. Lembro de você olhando a bunda da minha amiga e logo depois me dando um abraço forte e dizendo “cadê mesmo aquela revista que tem um texto lindo seu?”. E lembro da primeira vez que eu te vi e te achei meio feio, vesgo, estranho. Até que você me suspendeu no ar por razão nenhuma eu tive certeza que meu filho nasceria um pouco feio, vesgo e estranho.

E então, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao mundo todo que não agüenta mais esse assunto. Ao mar, às criancinhas peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, à vizinha, aos cachorrinhos em meditação, à torta, aos carros, à qualquer um...eu pergunto: por que é que vocês todos estão tão cinza? Por que é que vocês não me ajudam? Por que é que todos vocês também ficam tão tristes quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também amam ele?

junho 23, 2008

.A maior saudade.


Acordei mal humorada como de costume e logo me coloquei a arrumar a bagunça que estava meu quarto. Em meio a arrumação tentei lembrar do que sonhei. A cada tentativa de recordar o sonho, apertei cada vez mais a mente. A lembrança não vinha, a cabeça virou uma confusão. Essa sensação de esquecer algo é péssima. Daí ao tirar os cacarecos da prateleira, olhei o porta-retrato de relance e enfim.. Lembrei. Foi com ela que sonhei, mesmo sem saber ao certo como foi o sonho. E foi inevitável não sentir um grande aperto de saudade no peito. A minha avó: D. Elisabete. O ser mais doce que conheci. Uma mulher forte, guerreira. Aprendeu a ler escondido do pai. A ignorância do mesmo afirmava que mulher só queria aprender a ler pra escrever carta pra namorado. Casou tarde, aos 29 anos, com um homem que nunca viu, muito menos amou. Com ele teve 3 filhos e 3 netos. Sabe a leoa quando protege sua cria? Assim ela o fazia, até mesmo comigo.
Sacudiu a enfermeira durante o parto de minha mãe. Chorou ao me carregar pela primeira vez e em minha primeira eucaristia. Criticou meus brincos grandes. Escutou todos os meus planos.
Dizem que tudo na casa da avó tem mais graça. Assim era com a minha. Somente os biscoitos de sua casa eram gostosos. E os bolinhos de chuva? Nunca provei igual ao dela.
“Bruxinha” ... era assim que me chamava. Violetas eram as suas flores prediletas. Aos domingos íamos juntas à missa bem cedo. À tarde de domingo era compromisso marcado: levar o jornal da tv e ler o resumo das novelas, comentar sobre os personagens, pedir para que ela me fizesse cafuné, comer bolo, dar um beijo e ir pra casa. Não havia nada mais divertido do que sentar em seu colo e tentar cheirar o pescoço..ashuasuhsahuuisa... Ela sentia cócegas e tentava se esquivar. E por incrível que pareça, foi numa dessas tardes de domingo que ela partiu. Foi sutil em sua despedida. Repetiu todo o ritual que cumpríamos em nossas tardes de domingo, levou-me até a porta de casa, deu um beijo em meu rosto e esperou que eu desse as costas. Morávamos na mesma rua, assim que cheguei em casa o telefone tocou... Meu avô avisando que ela não estava passando bem. Tudo aconteceu muito rápido, questão de minutos. Saímos desesperados até lá, e quando cheguei.. Ela estava sentada no jardim, adormecida, já morta. O aneorisma que sempre tememos, enfim rompeu. Sei que foi a pessoa que mais confiou em mim. E foi a pessoa que mais confiei. Foi minha amiga. Foi minha “vó”. Não pôde chorar quando fiquei mocinha. Não foi aos meus 15 anos. Não pude ter seu colo quando mais precisei. Viajou e quando peço por carinho, sempre visita meus sonhos; neles tenho o melhor abraço de todos, o mais completo e denso.