junho 23, 2008

.A maior saudade.


Acordei mal humorada como de costume e logo me coloquei a arrumar a bagunça que estava meu quarto. Em meio a arrumação tentei lembrar do que sonhei. A cada tentativa de recordar o sonho, apertei cada vez mais a mente. A lembrança não vinha, a cabeça virou uma confusão. Essa sensação de esquecer algo é péssima. Daí ao tirar os cacarecos da prateleira, olhei o porta-retrato de relance e enfim.. Lembrei. Foi com ela que sonhei, mesmo sem saber ao certo como foi o sonho. E foi inevitável não sentir um grande aperto de saudade no peito. A minha avó: D. Elisabete. O ser mais doce que conheci. Uma mulher forte, guerreira. Aprendeu a ler escondido do pai. A ignorância do mesmo afirmava que mulher só queria aprender a ler pra escrever carta pra namorado. Casou tarde, aos 29 anos, com um homem que nunca viu, muito menos amou. Com ele teve 3 filhos e 3 netos. Sabe a leoa quando protege sua cria? Assim ela o fazia, até mesmo comigo.
Sacudiu a enfermeira durante o parto de minha mãe. Chorou ao me carregar pela primeira vez e em minha primeira eucaristia. Criticou meus brincos grandes. Escutou todos os meus planos.
Dizem que tudo na casa da avó tem mais graça. Assim era com a minha. Somente os biscoitos de sua casa eram gostosos. E os bolinhos de chuva? Nunca provei igual ao dela.
“Bruxinha” ... era assim que me chamava. Violetas eram as suas flores prediletas. Aos domingos íamos juntas à missa bem cedo. À tarde de domingo era compromisso marcado: levar o jornal da tv e ler o resumo das novelas, comentar sobre os personagens, pedir para que ela me fizesse cafuné, comer bolo, dar um beijo e ir pra casa. Não havia nada mais divertido do que sentar em seu colo e tentar cheirar o pescoço..ashuasuhsahuuisa... Ela sentia cócegas e tentava se esquivar. E por incrível que pareça, foi numa dessas tardes de domingo que ela partiu. Foi sutil em sua despedida. Repetiu todo o ritual que cumpríamos em nossas tardes de domingo, levou-me até a porta de casa, deu um beijo em meu rosto e esperou que eu desse as costas. Morávamos na mesma rua, assim que cheguei em casa o telefone tocou... Meu avô avisando que ela não estava passando bem. Tudo aconteceu muito rápido, questão de minutos. Saímos desesperados até lá, e quando cheguei.. Ela estava sentada no jardim, adormecida, já morta. O aneorisma que sempre tememos, enfim rompeu. Sei que foi a pessoa que mais confiou em mim. E foi a pessoa que mais confiei. Foi minha amiga. Foi minha “vó”. Não pôde chorar quando fiquei mocinha. Não foi aos meus 15 anos. Não pude ter seu colo quando mais precisei. Viajou e quando peço por carinho, sempre visita meus sonhos; neles tenho o melhor abraço de todos, o mais completo e denso.

8 comentários:

Vanessa M. disse...

Meu olho lacrimejou quando li esse último post. Ui..um aperto no coração.
Só tenho uma vó e foi a única que de fato pude conhecer.
Meus avós paternos nunca conheci de verdade. E nem meu vô materno.
Tenho sempre uma lembrança que não existiu de meu avó na sua fazenda. Não sei porque mais sinto muita saudade disso. Toda vez que tou no campo, no sitio eu lembro de algo e de alguém que nunca existiu.
E dói essa saudade. Vai entender.

LINDO, LINDO o post...
verdadeiro amor.
Tenho certeza de que onde ela esteja está acreditando em você.
beijoo

disse...

oi Ná... nossa, senti saudades da minha avó materna tambem... e me lembrei dos bolinhos de chuva! ha muito tempo que nao como bolinhos de chuva...
beiju e boa semana!

Vanessa M. disse...

náaa...seu msn que agora caiu, foi?
beijao

João Videira Santos disse...

Viajar nas lembranças, aviva a saudade, dói a recordação...

Xanda Barboza disse...

Nossa Nahh...senti vontade de chorar, só de imaginar a dor que seria perder a minha voinha...
é também o melhor pão com manteiga, a melhor farofa, omelete e vatapá...nossa... =/

"saudade é bom, ruim é não ter saudade"

vc é linda...e cada dia que leio esse blog, ou melhor, MERGULHO...mais me convenco de que vc nasceu pra isso.

estou de volta!
devagar, mas to ai...

lendo tdo pela frente.

beijo

.Intense. disse...

Toda vez que ouço falar de vó, fico carente, me sinto meio órfã. Nunca tive, nunca conheci, todas se foram antes mesmo que eu chegasse - em linhas gerais, acho que não fui um bebê mto esperado.rs

Mas daí me lembro da minha mãe, imensa e grande, suprindo todos os vazios e preenchendo todos os papéis que pode e não pode.

Mas, é estranho...é como sentir saudade de algo que eu não tive, nunca tive...mas nem por isso, deixo de sentir a saudade...

;*

Anônimo disse...

gostei do seus posts... e do layout.

belíssimo blog, vou mergulhar mais vezes aqui.
voltarei mais vezes.

bjs

Daniel Abreu disse...

E no final de tudo, apesar de todas as "avós" parecerem iguais, sentimos muita falta das nossas.

Iguais, até no cheiro no pescoço, ou nos biscoitos. Você escreveu sobre sua avó e eu li sobre a minha.

Obrigado por me trazer mais lembranças e mais saudades dela.

=]